Por que não brigar!

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Por que não “brigar”!

Desde a primeira vez em que, conversando com outros artistas marciais, informei que tinha iniciado a prática do Kenjutsu, fui confrontado com um questionamento inevitável:

– De que me valia treinar uma arte marcial que tem como instrumento a espada quando não posso andar por aí com ela na cintura?

Vale uma primeira reflexão. Não existe uma arte marcial verdadeira que o prepare, realmente, para atacar ou defender-se de um ataque. Parece absurda esta colocação? Concordo. Então vamos por outro caminho. Se o que você quer é aprender a lutar para defender sua vida, fuja de qualquer espaço onde o mestre lhe diga que com o seu método, você estará capacitado para defender-se de um ataque nas ruas, ou iniciar um ataque de forma tão efetiva que lhe garanta sempre a vitória (e se não é para ganhar sempre, para que iniciar?). Isto, para mim, é uma enorme mentira. Quer aprender a lutar? Observe as crianças que tem como habitat as vielas das periferias que estão à margem da nossa sociedade. Observe um daqueles meninos brigando. Quer mais? Observe o que acontece dentro de um presídio durante uma rebelião (já presenciei algumas). Você vai entender que quando o objetivo é destruir o outro, mesmo que o outro seja o que iniciou a agressão e você apenas tenta “preservar” a sua vida, a luta não possui método ou regras.

Isso significa que se o seu agressor, para sobreviver, tiver que rasgar os seus olhos, enterrar os dedos em sua garganta, ou lhe chutar onde você é mais vulnerável, ele de fato o fará e, ao receber uma agressão desta natureza, talvez passe por sua cabeça, um pouco antes de sucumbir, a frase “- mas isso não vale!!”

Temos que ter claro para nós que a partir do momento em que as artes marciais passaram a ser praticadas, encaradas, vivenciadas e comercializadas como esporte, elas criaram regras para viabilizar a sua inserção na sociedade, criando a ilusão em seus praticantes, que no combate real algumas regras, mínimas, serão respeitadas. Mentira, e essa mentira, tantas vezes propagadas no meio marcial, o levará ao fracasso em um combate real.

Fato é que quando as artes marciais que fazem uso da espada se desenvolveram, buscaram adaptar os seus golpes às condições de combate real, onde o oponente, quando em batalha, vestia uma armadura que, salvo alguns pontos, tornava o corpo do soldado quase invulnerável a alguns tipos de ataques. Então a solução foi desenvolver golpes que atingissem as partes do corpo não tão bem protegidas pela armadura como garganta (altura do VC 22), olhos, cavidade poplítea (região atrás do joelho), artérias (carótida, subclávia e braquial). Desta forma, seguindo os estudos necessários ao entendimento da arte da espada quando se enfrenta o oponente protegido por armadura, pode-se adaptar a forma de combate para os dias de hoje, simplesmente imaginando que aquele agressor de dois metros de altura, forte como um touro, acusará de forma mortal, um golpe que o atinja na garganta, ou efetiva, quando for atingido nos olhos, ou ambos. Assim, ao sermos agredidos, respondemos ao ataque da forma mais eficiente possível, buscando de forma precisa e rápida, golpear os pontos onde a musculatura não pode proteger o mais forte dos oponentes, causando-lhe um prejuízo físico tão avassalador que poderá lhe causar um traumatismo ou até mesmo a morte. Dai o questionamento que o título dessas considerações traz. Por que não brigar? Uma resposta possível seria porque, ou opto por combater dentro das “regras” de um “combate limpo” e corro o risco de ser derrotado, ferido ou morto, ou simplesmente combato, e destruo o meu agressor. Não me parece que quaisquer das duas opções anteriores deveriam fazer parte de um diálogo interno do verdadeiro artista marcial, assim, não combater, preservando a vida de ambos, me parece a melhor escolha.

Alguns, mais afoitos, podem lançar mão de um argumento que usei muito, há quarenta e quatro anos quando iniciei no caminho marcial e vivia “rezando” para que alguém iniciasse um conflito para que eu pudesse mostrar minhas habilidades: “- mas se o ataque partir do outro eu tenho o direito de me defender”…pode ser… ou não.

Ocorre que quando você está no verdadeiro caminho, você aprende que o início do treinamento fortalece você fisicamente, o meio deste caminho prepara você para antever situações de ataque e evita-las, o fim do mesmo caminho devolve a você a condição de ser parte da natureza, quando nada nem ninguém terá disposição para ataca-lo. Não por medo, mas apenas por você ter conduzido a sua vontade, o seu ego, para um estado de pacificação interior, onde só existe o Um, e não faz sentido ferir-se a si mesmo.

Então, se pensarmos arte marcial apenas como combate de egos, perceberemos que a técnica desenvolvida no combate com espadas, e aqui de maneira lógica, refiro-me ao Kenjutsu, meu caminho, é sim extremamente eficiente quando se trata de causar o maior estrago possível no menor tempo, encerrando uma agressão que jamais deveríamos permitir que se iniciasse. No fim e ao cabo, resta-nos refletir onde erramos ao ponto de permitir que a agressão ocorresse, tenha sido ou não, iniciativa nossa.

 

Eiki

Shoden Nidan

Shinto Ryu Shinken Bujutsu Tsukimoto Ha

 

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