SHINKÔ 2019 – AIZU MUSO RYU

A Associação Migaki esteve presente no evento Shinkô 2019, da escola irmã Aizu Honbu Gakkô (do estilo Aizu Muso Ryu), em Goiânia. A festividade reúne as tradições da arte marcial samurai, com apresentação de técnicas de combate corpo a corpo e com diversas armas, como Naginata, Katana e Jô.

Os representantes da Migaki apresentaram uma sequência de katas do estilo Aizu Ryu para combates, além de outras técnicas com espada. Houve, ainda, a exposição de armas japonesas Jitte (cassetete utilizado pela polícia da época), Sodegarami (lança com várias pontas destinada a imobilizar o agressor) e um Kaginawa (gancho usado para escalar muros, agarrar um oponente e puxar barcos). Essas armas foram forjadas para atender as necessidades dos policiais do período Edo e para subjugar samurais rebeldes, de modo a evitar que os mesmos utilizassem suas espadas. Além das armas, foram expostas belíssimas xilogravuras japonesas, que utilizavam para sua criação moku (madeira), água, papel, pigmento, pasta e instrumentos para esculpir o desenho, com atenção especial às matrizes esculpidas em madeira que serviam para a impressão dos temas.

O intercâmbio entre as escolas busca manter aberto o canal de estudos e troca de conhecimentos com os praticantes. Sensei Kenjiro, representante do estilo e fundador da escola em Goiânia, recebeu nossos alunos, que tiveram a honra de passar o fim de semana com ele e toda a família Aizu.

No ambiente marcial dos irmãos do Aizu Ryu, nossos alunos participaram de treinos com os praticantes, aprenderam as principais técnicas de base do estilo, além de manusear as armas e equipamentos utilizados para treinamento de combate.

Aizu Muso Ryu: Estilo tradicional de origem Samurai, estuda em sua grade, técnicas de combate com armas e corpo a corpo, desenvolvidas pelos guerreiros da província de Aizu, atual Fukushima. O nome do estilo é uma referência honrosa aos guerreiros e tradições marciais da região. Sensei Kenjiro (Okuden) é o atual representante do estilo no Brasil.

No Aizu Ryu, a transmissão do saber é realizada de forma dinâmica e segura, ao mesmo tempo que preserva as técnicas e filosofia milenares dos samurais. O ambiente de treinamento resgata a serenidade, a cordialidade e a disciplina, cultivando as virtudes em seus praticantes de todas as idades.

Por que não brigar!

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Por que não “brigar”!

Desde a primeira vez em que, conversando com outros artistas marciais, informei que tinha iniciado a prática do Kenjutsu, fui confrontado com um questionamento inevitável:

– De que me valia treinar uma arte marcial que tem como instrumento a espada quando não posso andar por aí com ela na cintura?

Vale uma primeira reflexão. Não existe uma arte marcial verdadeira que o prepare, realmente, para atacar ou defender-se de um ataque. Parece absurda esta colocação? Concordo. Então vamos por outro caminho. Se o que você quer é aprender a lutar para defender sua vida, fuja de qualquer espaço onde o mestre lhe diga que com o seu método, você estará capacitado para defender-se de um ataque nas ruas, ou iniciar um ataque de forma tão efetiva que lhe garanta sempre a vitória (e se não é para ganhar sempre, para que iniciar?). Isto, para mim, é uma enorme mentira. Quer aprender a lutar? Observe as crianças que tem como habitat as vielas das periferias que estão à margem da nossa sociedade. Observe um daqueles meninos brigando. Quer mais? Observe o que acontece dentro de um presídio durante uma rebelião (já presenciei algumas). Você vai entender que quando o objetivo é destruir o outro, mesmo que o outro seja o que iniciou a agressão e você apenas tenta “preservar” a sua vida, a luta não possui método ou regras.

Isso significa que se o seu agressor, para sobreviver, tiver que rasgar os seus olhos, enterrar os dedos em sua garganta, ou lhe chutar onde você é mais vulnerável, ele de fato o fará e, ao receber uma agressão desta natureza, talvez passe por sua cabeça, um pouco antes de sucumbir, a frase “- mas isso não vale!!”

Temos que ter claro para nós que a partir do momento em que as artes marciais passaram a ser praticadas, encaradas, vivenciadas e comercializadas como esporte, elas criaram regras para viabilizar a sua inserção na sociedade, criando a ilusão em seus praticantes, que no combate real algumas regras, mínimas, serão respeitadas. Mentira, e essa mentira, tantas vezes propagadas no meio marcial, o levará ao fracasso em um combate real.

Fato é que quando as artes marciais que fazem uso da espada se desenvolveram, buscaram adaptar os seus golpes às condições de combate real, onde o oponente, quando em batalha, vestia uma armadura que, salvo alguns pontos, tornava o corpo do soldado quase invulnerável a alguns tipos de ataques. Então a solução foi desenvolver golpes que atingissem as partes do corpo não tão bem protegidas pela armadura como garganta (altura do VC 22), olhos, cavidade poplítea (região atrás do joelho), artérias (carótida, subclávia e braquial). Desta forma, seguindo os estudos necessários ao entendimento da arte da espada quando se enfrenta o oponente protegido por armadura, pode-se adaptar a forma de combate para os dias de hoje, simplesmente imaginando que aquele agressor de dois metros de altura, forte como um touro, acusará de forma mortal, um golpe que o atinja na garganta, ou efetiva, quando for atingido nos olhos, ou ambos. Assim, ao sermos agredidos, respondemos ao ataque da forma mais eficiente possível, buscando de forma precisa e rápida, golpear os pontos onde a musculatura não pode proteger o mais forte dos oponentes, causando-lhe um prejuízo físico tão avassalador que poderá lhe causar um traumatismo ou até mesmo a morte. Dai o questionamento que o título dessas considerações traz. Por que não brigar? Uma resposta possível seria porque, ou opto por combater dentro das “regras” de um “combate limpo” e corro o risco de ser derrotado, ferido ou morto, ou simplesmente combato, e destruo o meu agressor. Não me parece que quaisquer das duas opções anteriores deveriam fazer parte de um diálogo interno do verdadeiro artista marcial, assim, não combater, preservando a vida de ambos, me parece a melhor escolha.

Alguns, mais afoitos, podem lançar mão de um argumento que usei muito, há quarenta e quatro anos quando iniciei no caminho marcial e vivia “rezando” para que alguém iniciasse um conflito para que eu pudesse mostrar minhas habilidades: “- mas se o ataque partir do outro eu tenho o direito de me defender”…pode ser… ou não.

Ocorre que quando você está no verdadeiro caminho, você aprende que o início do treinamento fortalece você fisicamente, o meio deste caminho prepara você para antever situações de ataque e evita-las, o fim do mesmo caminho devolve a você a condição de ser parte da natureza, quando nada nem ninguém terá disposição para ataca-lo. Não por medo, mas apenas por você ter conduzido a sua vontade, o seu ego, para um estado de pacificação interior, onde só existe o Um, e não faz sentido ferir-se a si mesmo.

Então, se pensarmos arte marcial apenas como combate de egos, perceberemos que a técnica desenvolvida no combate com espadas, e aqui de maneira lógica, refiro-me ao Kenjutsu, meu caminho, é sim extremamente eficiente quando se trata de causar o maior estrago possível no menor tempo, encerrando uma agressão que jamais deveríamos permitir que se iniciasse. No fim e ao cabo, resta-nos refletir onde erramos ao ponto de permitir que a agressão ocorresse, tenha sido ou não, iniciativa nossa.

 

Eiki

Shoden Nidan

Shinto Ryu Shinken Bujutsu Tsukimoto Ha

 

Yakisoba na Associação Japonesa de Santos

 

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YAKISOBA NA ASSOCIAÇÃO JAPONESA

 

 

No último dia 10 deste mês estivemos na Associação Japonesa de Santos prestigiando evento onde foi servido um delicioso yakisoba preparado pelas mãos gentis do grupo de colaboradoras da entidade. Mais do que isso, tivemos a oportunidade de degustar os doces preparados especialmente para esse evento, com o sabor inigualável das coisas preparadas “na hora”, passando longe dos alimentos industrializados que encontramos nas prateleiras dos mercados.

 

Satoru Sensei não deixou por menos e aproveitou o videokê para demonstrar o seu talento, incentivando os demais a segui-lo na difícil mas prazerosa arte de cantar.

 

Foi um domingo agradável, onde trocamos impressões com membros da diretoria da entidade, pudemos rever amigos e matar a saudade da casa que abrigou nossos treinamentos de Kendo e Kyudo por mais de um lustro. Que venham outros e que a entidade cresça e desenvolva as suas atividades com a atenção e o carinho que uma cultura tão rica quanto antiga merece.

Honzan em visita ao Aizu Ryu

Mantendo aberto o canal de estudos e troca de conhecimentos entre as escolas irmãs, nosso instrutor Honzan esteve em Goiânia desfrutando do ambiente marcial dos irmãos do Aizu Ryu. Seguem abaixo as impressões que trouxe da viagem e os registros fotográficos.

Duas escolas, um só coração.

 

 

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“Após 16 anos treinando com o Sensei Sojobo e todos os meus irmãos do caminho do budo, tive a oportunidade de vivenciar na prática um outro estilo de koryu (escola tradicional japonesa de arte marcial). Conheci o Sensei Kenjiro Misawa pela primeira vez em 2014, fundador e responsável pelo Dojo de Aizu Muso Ryu Misawa Ha, que se situa em Goiânia, no coração do Brasil.

Desde então, tive a honra de visitá-lo mais 3 vezes. A última vez foi agora, no início de abril de 2016, onde passei o fim de semana com toda família Aizu. E é sobre essa minha última visita que eu vou escrever agora.

 

Como de costume, desde o desembarque no aeroporto, sempre sou muito bem recebido pelo próprio anfitrão Sensei Kenjiro e também pelos seus alunos ao chegar no Dojo. Todos fazem questão de nos deixar à vontade quando estamos os visitando e o sentimento de “irmandade” que paira no ar é extremamente cativante.

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Logo no primeiro dia, sexta-feira, participei do treino noturno, juntamente com todos os alunos ali presente. Técnicas fortes de iaijutsu as quais exigiu um alto grau de concentração, atenção e um bom preparo físico (é nessas horas que damos valor ao treinamento que o Sensei Sojobo sempre nos exigiu). Novos pontos de vista de movimentos já conhecidos. Conceitos novos de uma tradição já estudada. Mas a essência é a mesma, a energia é a mesma, os valores são os mesmos. É como beber a mesma água de um mesmo pote, mas com uma caneca diferente. Tudo veio à tona. Todas as minhas lembranças de 16 anos de tatame me vieram à mente. Me senti vivo novamente! A marcialidade estava ali presente, sempre esteve. Mais um ponto de luz que veio como um presente do Japão para o Brasil, como uma brasa que muitos pensavam que fosse se apagar facilmente com o passar dos anos. Até acredito que muitas outras brasas infelizmente tenham se apagado, mas a brasa de Aizu foi mantida, guardada carinhosamente durante décadas e no momento oportuno foi soprada na palha, e depois nos gravetos, e depois em uma enorme fogueira no centro da América do Sul. Sim, naquele Dojo temos vivo o espírito do budo, uma arte tradicional viva!

 

Depois do treino, uma breve conversa descontraída com os irmãos de armas, pois no outro dia pela manhã teríamos treino novamente.

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E assim foi: logo pela manhã no sábado, voltei ao tatame do Aizu Hombu Gakko para mais uma seção de treino. Dessa vez focamos mais nos detalhes das técnicas de Aizu Ryu. O Sensei Kenjiro me passava detalhe por detalhe. Foram mais 3 horas de treino, juntamente com os alunos mais graduados do Dojo. Simplesmente fantástico treinar com eles. O mesmo sentimento que eu estava tendo em aprender, pude sentir neles quando me ensinavam os katas. Maravilhado e ávido para tentar absorver todo aquele conteúdo, não queria parar, mesmo com os joelhos já literalmente esfolados por conta das técnicas em suwari waza.

No fim da aula, após todos os cerimoniais e “reigi” de encerramento, pedi licença ao Sensei Kenjiro para pronunciar algumas palavras em agradecimento a todos pela oportunidade concedida a mim de poder treinar junto a eles, pelo respeito que eles têm por nós do Shinto Ryu – escola irmã – e também por manter viva uma tradição por muitos esquecidos, mesmo no Japão.

 

Ainda no domingo, eu e Sensei Kenjiro tivemos um momento de parte teórica e estudo de aplicações de certas técnicas – anotações, explicações, correções de tai sabaki e posturas, fecharam com chave de ouro minha estadia em Goiânia. Peguei o avião de volta à São Paulo já pensando quando seria meu regresso, tamanha era a vontade de estar novamente com todos do Aizu.

 

O intercâmbio de conhecimentos que nós do Shinto Ryu e os irmãos do Aizu Muso Ryu construímos não se limita somente em katas e técnicas propriamente ditas, eu diria que é um intercâmbio de conhecimento geral, história, vivências, harmonia, respeito mútuo, filosofia. Acredito profundamente que somos uma única família, de irmãos e irmãs, os mais velhos cuidando do crescimento e formação dos mais novos, passando a tradição e os bons costumes da nossa querida e amada arte com todo o cuidado e carinho.

 

Oss!

 

Domou Arigatou Gozai Mashita

Honzan

 

 

Tomoe

Tomoe ,

Jóia Yasakani no magatama

O tomoe é um desenho de vírgula ou turbulência em forma de uma variedade de origens possíveis. Assemelha-se aos antigos japoneses jóias curvas (como a jóia “Yasakani no magatama”, uma das três relíquias imperiais japonesa). Há muitas variações de Tomoe,  dada a grande extensão que tinha o símbolo, que além de caracterizar Shinto tornou-se parte da simbologia também budista.

É um elemento comum de design em emblemas família japonesa (kamon) e logotipos corporativos, particularmente em espirais triplica conhecido como Mitsu tomoe ou Mitsudomoe  (三つ巴).

Símbolo Mitsudomoe

A origem do tomoe não é certa.  possíveis origens associá-lo com um protetor de pulso, usada por arqueiros, Embora datando do período Nara (710-794), que só se tornou amplamente utilizada no século X ou XI, mas nesse ponto, tornou-se imensamente popular no início do Edo período (1600).

A mitsu tomoe reflete a divisão tríplice do shintoísmo cosmologia, e é dito para representar a terra, os céus, e a humanidade. e tornou-se especificamente associado com Hachiman, Kami da guerra. Também era um símbolo utilizado pelos samurais. Uma variante do Mitsudomoe, o Gomon Hidari, é o símbolo tradicional de Okinawa.

A existe um estilo da versão chinesa do Tomoe  chamando Yin-Yang-Yuan ou tripla Taijitu, dentro do Taijitutaoísta. Os Dois dos três partidos são os dois princípios polares, Yin e Yang , a terceira parte é o universo , ou todos os eventos que brotam de dois princípios primordiais na explicação do Yin-Yang-Yuan.

AGORA – O TEMPO SAGRADO

Agora – O Tempo Sagrado.

O antropólogo Andre Van Lysbeth escreveu: “As noções de tempo linear, tempo cíclico não são explicitadas nem citadas no Tantra da Índia simplesmente porque tempo linear é uma abstração moderna”.

Para os tântricos o tempo era o agora, esse era o tempo sagrado.

Nas artes marciais ligadas ao Shingon e aos mestres shugenshas – que ensinavam os caminhos tântricos japoneses – obter esta noção de tempo sagrado é condição para o avanço do artista marcial.

Conceitos como Zanshin e Mushin só podem ser entendidos a partir de uma experiência no agora, experienciando-os no tempo sagrado.

Mais proveitoso do que conceituar é saber como acessar esse Tempo Sagrado.

Esse acesso acontece a partir de uma atitude especial de atenção sem tensão, na qual nos mantemos no instante. Podemos dizer ainda que é o acesso pela consciência despojada e entregue, entregue ao momento em que se vive o mito, o mantra, a cura, o Kata, a pia de louças para lavar.

Chogyam Trungpa diz em A Trilha Sagrado do Guerreiro:

– “ Precisamos encontrar o vínculo entre nossas tradições e nossa experiência atual de vida. O agora ou a magia do momento presente é que une a sabedoria do passado com o presente. Quando apreciamos uma pintura, uma música ou uma obra literária, não importando quando tenha sido criada, nos a apreciamos  agora. Vivenciamos a mesma imediatez do momento no qual  foi criada. Sempre é agora.”

Esse tempo sagrado precisa ser entendido e valorizado e isso pode ser feito de uma forma simples, começando pelo interesse genuíno pelos detalhes da vida. Comecemos por tomar consciência do que nos rodeia, dos que nos rodeiam, do que ocorre em nosso cotidiano.

Estarmos conscientes quando cozinhamos, quando dirigimos , quando exercitamos um Kata pode nos libertar de nossa própria opressão, da neurose, do ressentimento. Pode nos libertar da corrupção de buscar um agora impossível, que só existe neuroticamente no passado ou no futuro.

O passado, por ser passado, não existe mais. O futuro, por ainda estar por vir, não existe ainda.

E se não existe passado, nem futuro, não há expectativas e não há medo.

Fique atenta, fique atento. Mantenham-se na clareza.

 Lália Oliveira

 -Emiko-

A transformação das Artes Marciais em esporte.

Após a pacificação imposta pelo governo Tokugawa, no século XVII, as oportunidades de se demonstrar qual técnica era mais eficiente em combate real restaram bastante diminuídas, o que passou a incentivar competições entre Ryus (escolas) a fim de se comprovar a supremacia de um estilo sobre outro. Entretanto, mesmo com estas disputas, ainda não imperavam nas artes marciais o desejo e objetivo primordial de vencer o outro que se vislumbra nas artes marciais competitivas modernas, principalmente pela proximidade com o Zen Budismo que acabou por introduzir nas artes marciais, conceitos mais espiritualizados. Desta forma, competições haviam, mas sobrepunha-se a estas, o entendimento de que uma arte marcial tem por finalidade o crescimento espiritual do seu praticante e o desenvolvimento da sua percepção quanto ao dever para com a família, o trabalho e a nação.

Com o advento da restauração Meiji, a situação dos Ryus tradicionais tornou-se ainda mais delicada, sendo um dos pontos altos deste momento, a criação da Dai Nippon Butoku Kai (大日本武徳会 Grande Casa das Excelências Marciais do Japão), instituição fundada em Kyoto em 1895, subordinada ao Ministério da Educação e com aval de sua Alteza Real o Imperador Meiji. Sua finalidade à época era, entre outras, padronizar e solidificar as artes marciais, sendo considerada a primeira instituição oficial com esta missão.

Com o ingresso dos Estados Unidos em terras japonesas ao final da segunda guerra mundial, as forças de ocupação encontraram-se diante de um problema ao constatarem que o dinamismo, a força e a tenacidade do povo japonês advinha, boa parte, da sua prática Marcial. Após a percepção desta verdade, os Estados Unidos através das ações da SCAP,  fez o possível para eliminar as artes marciais do cotidiano do povo japonês, sendo uma das medidas mais impactantes, a desarticulação da Nippon Kutoku Kai em 1946. Neste sentido, a sua dissolução pela SCAP cumpriu um papel fundamental na transformação que se deu: o distanciamento da religiosidade com a marcialidade e a aproximação desta com os esportes, mudando fundamentalmente seu objetivo original. Esta instituição só voltou às atividades em 1953

Esta ação, o encerramento das atividades da NBK e de outras entidades ligadas à marcialidade do povo japonês, representou quase um golpe fatal aos Koryu. Isto apenas não aconteceu pela proximidade e ligação inafastável que existe entre a espiritualidade (religiosidade) e a marcialidade do povo japonês.

Em que pese o ocorrido ter retirado as artes marciais do universo exclusivo da classe samurai e possibilitado o seu aprendizado por qualquer um interessado, também é verdade que a sua transformação em esporte (principalmente olímpico) fez com que perdesse de vez a ideia de que sua finalidade é preparar o indivíduo para vencer suas limitações, não o outro.

Ao colocarmos como foco principal de um treinamento marcial a subida ao ponto mais alto de um podium, bem como induzirmos a sociedade a pensar que por ter os melhores atletas, um povo é melhor preparado que outro, passamos à prática de que os fins justificam os meios, desatentos inclusive com as questões éticas, sendo prova indiscutível disso, os inúmeros casos constatados de dopping que criam superatletas, apenas pela presunção errônea de que aquele que melhor se sobressai sobre todos os demais competidores é de alguma forma um ser humano melhor. Basta esse fato para que percebamos o quanto o esporte profissional distânciou o ser humano das questões éticas espirituais.

As artes marciais tradicionais, livres do desejo de vencer o outro, buscam através de uma prática exaustiva fazer surgir um ser humano melhor. Através de uma melhor condição física e espiritual, prepara-se o budoka para atender às necessidades da sua família, do seu meio social, da sua nação. Finalizamos argumentando que não somos contra o esporte, mas sim somos veementemente contra o uso que dele se faz enquanto ferramenta política – vide os anos da chamada “guerra fria – ou enquanto prioriza o vencer o outro, gerando pessoas frustradas por não serem os primeiros, e pessoas angustiadas por terem “chegado lá” e assumirem, contra a vontade e a lógica do tempo, a obrigação de permanecerem em primeiro lugar por todo o resto de suas vidas. Esse o nosso entendimento.

Eiki

Shoden Nidan

Shinto Ryu Shinken Bujutsu Tsukimoto Ha

O COACHING E A ARTE MARCIAL

De forma superficial podemos definir o Coach como o profissional especializado no processo de Coaching. Pode ser considerado um treinador que assessora o cliente (Coachee), levando-o a refletir, chegar a conclusões, definir ações e, principalmente, agir em direção a seus objetivos, metas e desejos.

As pessoas que estudam ou tem interesse pela esgrima samurai, em algum momento se deparam com um nome que se tornou lenda nos meios marciais tradicionais. Me refiro à família dos Yagyu. Membros desta família de exímios esgrimistas foram, durante décadas, mestres de esgrima dos Shogun Tokugawa. Cabe uma pergunta: se era inconcebível que um Shogun entrasse em luta direta com um inimigo (se chegasse a este ponto significava que todas as suas defesas falharam e deveria cometer sepuku para não correr o risco de cair prisioneiro e sofrer desonra), então por que todos mantinham, sob sua proteção, um mestre de esgrima?

A resposta pode surpreender. É porque a arte que ensinavam não se destinava ao combate individual homem versus homem, ou homem versus vários inimigos, mas preparava o governante para, através da arte marcial, entender como se relacionar com um adversário, com vários adversários ou mesmo com todo um exército. A evolução da técnica, leva o discípulo a utilizar a arte marcial para governar toda uma nação, e era esta a missão do instrutor de esgrima de um governante, fosse ele um Shogun ou Imperador.

Daí o nosso entendimento de que o coaching não é atividade tão atual assim, muito pelo contrário, era dever do mestre de esgrima (treinador) mudar a vida do seu “cliente” de forma que o mesmo se tornasse um ser humano melhor, daí um melhor governante.

Nos tempos atuais, Dojo que ensinam artes tradicionais (koryu), jamais focam o treinamento no preparo para vencer o outro, mas para que o aluno entenda e supere suas limitações, além de utilizar a estratégia (heiho) como ferramenta para percorrer o caminho.

Acredite, se a arte que você pratica não lhe ensina a utilizar suas técnicas aprimorando sua relação doméstica, empresarial ou nos demais espaços da sociedade, você pode estar praticando um esporte ou uma forma de luta, mas isso não é arte marcial. Este o nosso entendimento.

EIKI

Shoden Nidan

Shinto Ryu Shinken Bujutsu Tsukimoto Ha

Visita ao mestre Antonio Tessarin

No último dia 14 de novembro estivemos na cidade de Cerquilho em visita ao Luthier Antonio Tessarin, buscando aprimorar nosso conhecimento na aplicação da laca nos arcos (yumi e hankyu). Fomos recebidos pelo artesão e seu filho de forma muito gentil e acolhedora. Tendo nos franqueado a entrada às dependências de sua oficina, compartilhou todos os conhecimentos que buscávamos, não se escusando de nos suprir com todas as informações necessárias. Dono de um vasto conhecimento, nos apresentou a possibilidade de utilizarmos outros ferramentais, formas distintas de curvar as peças e dar-lhes o tratamento que melhor preservasse as suas qualidades. Enfim, um final de semana digno de registro pelo ser humano que conhecemos e pelas técnicas assimiladas.

Ao mestre, domo arigatou gozai masu.

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