A transformação das Artes Marciais em esporte.

Após a pacificação imposta pelo governo Tokugawa, no século XVII, as oportunidades de se demonstrar qual técnica era mais eficiente em combate real restaram bastante diminuídas, o que passou a incentivar competições entre Ryus (escolas) a fim de se comprovar a supremacia de um estilo sobre outro. Entretanto, mesmo com estas disputas, ainda não imperavam nas artes marciais o desejo e objetivo primordial de vencer o outro que se vislumbra nas artes marciais competitivas modernas, principalmente pela proximidade com o Zen Budismo que acabou por introduzir nas artes marciais, conceitos mais espiritualizados. Desta forma, competições haviam, mas sobrepunha-se a estas, o entendimento de que uma arte marcial tem por finalidade o crescimento espiritual do seu praticante e o desenvolvimento da sua percepção quanto ao dever para com a família, o trabalho e a nação.

Com o advento da restauração Meiji, a situação dos Ryus tradicionais tornou-se ainda mais delicada, sendo um dos pontos altos deste momento, a criação da Dai Nippon Butoku Kai (大日本武徳会 Grande Casa das Excelências Marciais do Japão), instituição fundada em Kyoto em 1895, subordinada ao Ministério da Educação e com aval de sua Alteza Real o Imperador Meiji. Sua finalidade à época era, entre outras, padronizar e solidificar as artes marciais, sendo considerada a primeira instituição oficial com esta missão.

Com o ingresso dos Estados Unidos em terras japonesas ao final da segunda guerra mundial, as forças de ocupação encontraram-se diante de um problema ao constatarem que o dinamismo, a força e a tenacidade do povo japonês advinha, boa parte, da sua prática Marcial. Após a percepção desta verdade, os Estados Unidos através das ações da SCAP,  fez o possível para eliminar as artes marciais do cotidiano do povo japonês, sendo uma das medidas mais impactantes, a desarticulação da Nippon Kutoku Kai em 1946. Neste sentido, a sua dissolução pela SCAP cumpriu um papel fundamental na transformação que se deu: o distanciamento da religiosidade com a marcialidade e a aproximação desta com os esportes, mudando fundamentalmente seu objetivo original. Esta instituição só voltou às atividades em 1953

Esta ação, o encerramento das atividades da NBK e de outras entidades ligadas à marcialidade do povo japonês, representou quase um golpe fatal aos Koryu. Isto apenas não aconteceu pela proximidade e ligação inafastável que existe entre a espiritualidade (religiosidade) e a marcialidade do povo japonês.

Em que pese o ocorrido ter retirado as artes marciais do universo exclusivo da classe samurai e possibilitado o seu aprendizado por qualquer um interessado, também é verdade que a sua transformação em esporte (principalmente olímpico) fez com que perdesse de vez a ideia de que sua finalidade é preparar o indivíduo para vencer suas limitações, não o outro.

Ao colocarmos como foco principal de um treinamento marcial a subida ao ponto mais alto de um podium, bem como induzirmos a sociedade a pensar que por ter os melhores atletas, um povo é melhor preparado que outro, passamos à prática de que os fins justificam os meios, desatentos inclusive com as questões éticas, sendo prova indiscutível disso, os inúmeros casos constatados de dopping que criam superatletas, apenas pela presunção errônea de que aquele que melhor se sobressai sobre todos os demais competidores é de alguma forma um ser humano melhor. Basta esse fato para que percebamos o quanto o esporte profissional distânciou o ser humano das questões éticas espirituais.

As artes marciais tradicionais, livres do desejo de vencer o outro, buscam através de uma prática exaustiva fazer surgir um ser humano melhor. Através de uma melhor condição física e espiritual, prepara-se o budoka para atender às necessidades da sua família, do seu meio social, da sua nação. Finalizamos argumentando que não somos contra o esporte, mas sim somos veementemente contra o uso que dele se faz enquanto ferramenta política – vide os anos da chamada “guerra fria – ou enquanto prioriza o vencer o outro, gerando pessoas frustradas por não serem os primeiros, e pessoas angustiadas por terem “chegado lá” e assumirem, contra a vontade e a lógica do tempo, a obrigação de permanecerem em primeiro lugar por todo o resto de suas vidas. Esse o nosso entendimento.

Eiki

Shoden Nidan

Shinto Ryu Shinken Bujutsu Tsukimoto Ha

2 comentários sobre “A transformação das Artes Marciais em esporte.

  1. Parabéns!…este texto muito me lembra Kenjiro Sensei palestrando!….rsssssss…eu gostei muito da forma e usei ele em uma publicação no meu site/blog http://butokukendokan.blogspot.com.br/…. só uma observação…entre 1868 e 1943 muita coisa aconteceu e que faz a estreita ligação de idéias e compreensão da história como um todo…poderia completar esta lacuna num próximo post, para melhor entendimento por parte dos leitores (estudiosos)… ficaria muito bom!

    …domo arigato gozaimashita!

  2. Saudações.
    Agradeço a sua atenção para com nosso texto. É verdade, ouço o que Kenjiro Sensei fala com a mesma atenção que ouço Sojobo Sensei, meu mestre no Shinto Ryu Tsukimoto Ha. Tenho certeza que ainda há muito para se dizer, poucas pessoas que se proponham a dizer e menos ainda aquelas que se disponham a ouvir, no entanto, toda contribuição sincera é bem vinda. Desta forma, sugiro que mande seus comentários acerca do que poderíamos ampliar no texto. Na medida do possível, publicaremos a sua opinião. Domo Arigato Gozaimasu.

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