Arquivos diários: 19 de setembro de 2021

“Conheça a Verdade e ela não te libertará”.

A frase fala de liberdade, esse sentimento desconhecido para alguns, equivocado para outros e desejado por quase todos os seres. Mas o que é ser livre?

A mídia tem trabalhado o ideário das pessoas, associando produtos, viagens, opções religiosas, filosóficas e políticas como respostas para essa pergunta. Permita-me compartilhar a minha visão marcial do que o conhecimento traz ao ser humano e o quanto pode aprisionar em um caminho sem volta ou paradas para descanso.

Imaginemos uma criança recém-nascida. Eis um ser “livre”. Por sua total ausência de valores éticos, morais, religiosos ou quaisquer outros, tudo o que ela precisa está ao alcance de suas mãos e boca. Alimentar-se, dormir, ser cuidada por outra pessoa a torna um ser totalmente alheio ao que acontece no seu redor, mesmo porque nada poderia fazer para alterar a realidade que a circunda. Não existe culpa, remorso ou dúvida.

Pense nesta mesma criança aos dois anos de idade. A sua “liberdade” já se foi há algum tempo. Explico.

Dê a esta criança uma taça de cristal, uma antiguidade de valor inestimável, e ela, provavelmente, irá jogá-la pela janela apenas para ouvir o barulho ao espatifar-se no chão. Tente captar algum sentimento de culpa, perda ou qualquer outro sentimento na criança cinco minutos depois de ter praticado o ato. Você não irá vai encontrar nada.

Muito bem. Pegue esta mesma criança e tente convencê-la a fazer a mesma coisa com a sua chupeta. Provavelmente, você enfrentará um berreiro infindável e uma resistência incrível contra o ato. Por quê? A resposta é simples.

Na medida em que a criança “conhece” a sua chupeta, ela, de forma inevitável, lhe atribui um “valor” e será esse “valor” que retira da criança a liberdade de fazer com a sua chupeta a mesma coisa que fez com a taça de “valor inestimável”.

Na medida que crescemos, vamos adquirindo novos conhecimentos e passamos a atribuir valor às coisas que conhecemos, e justamente o conhecimento adquirido e o valor atribuído impõem a todos nós a limitação de agir sem cuidado com as coisas às quais atribuímos maior valor. No mesmo sentido, conhecer, seja o valor da vida ou de uma informação, nos torna responsáveis por aquilo que fazemos.

A Arte Marcial ensina a matar, mas à medida que o praticante avança em seus conhecimentos, deve avançar simultaneamente o seu respeito pela vida. Durante esta caminhada, ainda, o praticante será surpreendido pela descoberta de que os pontos que podem matar podem curar. E neste momento, o conhecimento que o praticante adquiriu do valor da vida, o tira a liberdade de fazer ou deixar de fazer o quiser com esse conhecimento, só lhe restando o caminho da cura. Aliás, o valor atribuído à vida no caminho marcial, advém da ausência de uma das maiores chagas da sociedade atual, qual seja a da “herança tecnológica”.

Deparei-me pela primeira vez com esse termo lendo uma ficção pobre de enredo, mas que valeu todo o tempo que despendi com a obra. Pense quanto tempo um artista marcial leva para ter o domínio sobre métodos para matar. Este tempo é utilizado pelo mestre para observar e incutir no discípulo o seu conhecimento e respeito pela vida, de forma que, ao atingir a condição de matar, já adquiriu o respeito necessário para jamais ferir outro ser humano. Herança tecnológica funciona assim: você entra em uma casa de armas e em meia hora, sai de lá com uma arma e com capacidade para matar outras pessoas sem que qualquer preparo lhe fosse dado para que contrapusesse o poder de matar que a herança tecnológica concedeu com o valor da vida. Esta é uma fórmula segura para um desastre.

Assim, tenho como certo o fato de que quanto mais conheço, mais condições eu tenho de atribuir valor às coisas e menos liberdade eu tenho de fazer com elas o que bem entender. Ou deixar de agir quando a vida e o caminho (Do) me proporcionaram as ferramentas para alterar a realidade que me cerca para melhor.

Este o nosso entendimento.

Eiki

Shoden Nidan

Shinto Ryu Shinken Bujutsu Tsukimoto Ha.