A Migaki

“Todo estudante de arte, que leve os estudos a sério, deve aprender a reconhecer e lidar com algo muito parecido com isso. Ao se dirigir a um mestre, para estudar e aprender as técnicas, você segue, escrupulosamente, as instruções que ele lhe dá. Mas chega o momento de usar as regras à sua própria maneira, sem se deixar limitar por elas. É o momento da proeza do leão. Na verdade, você pode esquecer as regras, porque elas foram assimiladas. Você é um artista. Sua própria inocência, agora, é a de alguém que se tornou um artista, alguém que passou por uma transformação. Você já não se comporta como alguém que nunca tenha praticado uma arte.”

(Joseph Campbell – O Poder do Mito – pag. 164. Ed. Pala Athena)

As classes guerreiras de todos os tempos e povos sempre foram (re)conhecidas pelos atos de bravura, honra e glória. Suas campanhas vitoriosas, suas batalhas épicas, suas motivações em proteger um senhor ou à uma causa sempre dignificaram sua razão de ser e de se reconhecer no mundo. Entretanto, para além do poderio militar, do conhecimento estratégico ou da necessidade social, as classes guerreiras em diversas épocas também foram marcadas pelo seu senso irmandade.

Fato é que sua força, solidez e continuidade sempre demandaram – além de suas perícias – na concepção de somente através de uma cultura de proteção e valorização mútua, de reconhecimento de potencialidades e de ideal de preservação.

Distantes de um período de guerras, conflitos armados e políticos de toda ordem, ou mesmo distantes de suas origens geográficas, mas sedimentadas em atual solo fraterno, duas casas de armas irmãs se veem no imperioso e urgente processo de dar as mãos em torno de um ideal maior: o de envidarem esforços mútuos na preservação, cuidado e transmissão de duas culturas já milenares na história das civilizações guerreiras.

É nesse sentido que tanto o Aizu Muso Ryu – Misawa Ha, quanto o Shinto Ryu – Tsukimoto Ha – ambos estilos tradicionais de origem samurai e residentes no Brasil desde o contexto de imigração no século anterior – buscam através da cooperação, do coletivo aprendizado e transmissão, preservar ambos os estilos em suas raízes, tradições e valores seculares.

Considerando uma época de intensos valores morais, sociais e espirituais subvertidos pelo interesse imediatista, o aprendizado compactado, das emulações do ego ou das possibilidades de auferimentos de lucro através de um mercado não condizentes com as premissas da tradição japonesa, a inciativa de se manter o legado vivo dos antigos samurais através da coexistência de ambas as escolas numa continua permuta e preservação denota que além da clássica figura do guerreiro altivo, existe o espírito de contemplação de tudo o que é verdadeiro e belo, e que se transfigura na vivência do Budô e no reconhecimento do “outro” como “outro de si”, em igualdade e dignidade…

Viver, sentir, preservar, compartilhar, transmitir. Estas são as palavras de ordem que motivam o trabalho realizado pelos soke, deshi, demais alunos e colaboradores a integrar o estudo das duas tradicionais escolas de bujutsu. Viver uma ancestralidade marcada pelo cultivo de valores nobres, dentre eles a irmandade e a piedade filial, representados no respeito às tradições e aos antepassados;

Sentir a atmosfera que nos transporta diretamente para um passado longínquo temporalmente, mas presente em nossos corações a cada vez que iniciamos um treino ou nos confraternizamos após uma jornada de batalhas modernas; Preservar toda a tradição que um dia nos fora confiados por nossos mestres em sua integralidade, pureza e eficiência, sabendo dos desafios em se conceber uma forma de vida e de percepção da mesma nos tempos atuais; Compartilhar das experiências entre casas irmãs quanto ao trato de situações que imperam no cotidiano de uma escola que prima pela manutenção de um modo de conduta distinto. Trato este que faz com que possamos aprender uns com os outros nas dificuldades e acertos, nas glórias e nas provações pela nossa trajetória; Por fim, transmitir o conhecimento entre aqueles que demonstram a empatia e o desejo de compreender e assimilar valores caros à evolução do ser, sobretudo entre aqueles que iniciaram sua jornada na senda do caminho e demonstram as condições necessárias de assimilação e desejo de perpetuação.

É sobre estes prismas que o Aizu Muso Ryu Misawa Ha e o Shinto Ryu Tsukimoto Ha, através da Associação Migaki, em Santos-SP, se colocam em franca cooperação histórica, cultural e patrimonial. Acreditamos assim que as que as próximas gerações possam beber da fonte viva de um passado que permanece ileso nos corações e ações de homens que – acima de si mesmos, de seus egos e emulações – colocam o Budô como prioridade existencial.